FONTE: ALGOMAIS

Economia, inovação e segurança apresentam sinais positivos, enquanto infraestrutura e indicadores sociais expõem desafios de longo prazo

*Por Rafael Dantas

Por que uma empresa decide investir em um Estado e não em outro? O que leva um profissional a escolher determinada cidade para construir sua carreira? Decisões como essas estão diretamente relacionadas à competitividade de cada lugar. Segurança, mobilidade, infraestrutura e respeito às diferenças são apenas alguns dos fatores que pesam nessas escolhas e ajudam a definir a capacidade de Estados e municípios de atrair investimentos, talentos e oportunidades.

No Brasil, o CLP Liderança Pública divulga anualmente rankings de competitividade dos Estados e dos municípios, reunindo uma série de indicadores que permitem comparar diferentes dimensões do desenvolvimento. Na edição mais recente, Pernambuco aparece na 17ª posição entre os Estados, enquanto o Recife ocupa o 11º lugar entre as capitais. Os resultados colocam em perspectiva os avanços e, principalmente, os desafios que Pernambuco e sua capital precisarão enfrentar nos próximos anos.

Mais do que observar um pódio dos lugares mais ou menos competitivos, o mais relevante nesses estudos é identificar a partir da composição da nota quais foram os pontos fortes e fracos. Esses indicadores apontam para o diagnóstico da saúde econômica e social do Estado e dos municípios pernambucanos.

estados nordeste

Pernambuco avança, mas mantém gargalos 

O Estado de Pernambuco avançou duas posições no ranking da CLP Liderança Pública, mas permanece numa incômoda 17ª colocação. Estão à frente, por exemplo, vizinhos do Nordeste como Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte. Na região, a liderança é cearense. 

“Pernambuco é uma das notícias positivas do Ranking de Competitividade dos Estados 2026. O Estado avançou duas posições e alcançou sua melhor colocação dos últimos três anos. É um resultado relevante porque não está concentrado em apenas uma área. Há avanços simultâneos em pilares que ajudam a medir tanto a capacidade de criar condições para o desenvolvimento econômico quanto a qualidade de sua gestão”, afirmou Tadeu Barros, diretor-presidente do CLP.

O avanço foi puxado por indicadores relacionados ao ambiente econômico, à segurança e às contas públicas. “O principal salto ocorreu em Potencial de Mercado, no qual Pernambuco avançou nove posições em apenas um ano, passando do 26º para o 17º lugar. Também houve uma melhora importante em Segurança Pública, com ganho de quatro colocações, da 21ª para a 17ª posição, e em Solidez Fiscal, em que o Estado passou do 14º para o 12º lugar. São movimentos que mostram uma evolução em áreas bastante distintas e ajudam a explicar a melhora da posição geral”, destacou Tadeu Barros. 

Ao analisar os indicadores de forma mais segmentada, o economista Edgard Leonardo, professor do Unit-PE (Centro Universitário Tiradentes) ressaltou ainda outros pontos positivos que surgiram no estudo. “Pernambuco está em quarto lugar em Recuperação de Áreas Degradadas e em Mortalidade Materna. Em Segurança Pública, aparece em terceiro lugar em Qualidade da Informação Criminal. Na Educação, ocupa a primeira posição em Avaliação da Educação”. Ele apontou ainda itens como o terceiro lugar no indicador de Qualidade da Informação Contábil e Fiscal e o segundo lugar em Pesquisa Científica, dentro do campo da Inovação.

Tadeu Competitividade

Por outro lado, Tadeu Barros apontou que houve piora em aspectos ligados à força de trabalho, à logística e o acesso aos serviços básicos e às condições sociais da população do Estado. “O Ranking também deixa claros os desafios que permanecem. Capital Humano é hoje o ponto de maior atenção, com Pernambuco na 25ª posição nacional, apesar do avanço de uma colocação. A infraestrutura merece atenção adicional, já que Pernambuco caiu quatro posições e passou do 11º para o 15º lugar”. 

Também ao observar o estudo por subitens, Edgard Leonardo destacou aspectos críticos do Estado nesse relatório. Entre os problemas, ele aponta que Pernambuco está em 24º lugar no indicador de Famílias Abaixo da Linha da Pobreza e em 27º em Inserção Econômica. No campo da Segurança Pública, o Estado está na 24ª posição no indicador de Presos sem Condenação. O ranking revelou ainda a preocupante posição de 26º lugar em Produtividade dos Magistrados e Servidores do Judiciário e no 20º lugar na Acessibilidade dos Serviços de Telecomunicações.

“É justamente essa combinação que precisa ser observada. Pernambuco apresenta bons resultados em algumas áreas, mas continua com dificuldades em indicadores sociais, de capital humano e em parte da infraestrutura. O avanço no ranking geral é importante, mas não significa que os problemas estruturais estejam resolvidos”, apontou o economista.

pernambuco ranking

Recife lidera o Nordeste, mas tem desafios sociais relevantes

Com a 11ª colocação no ranking entre as capitais do País, o Recife ostenta a liderança do Nordeste, e tem uma posição mais confortável que o Estado. Porém, ao analisar os dados entre todos os municípios do País, a capital pernambucana está em 69ª, ficando 8 posições atrás, quando comparado com o ano de 2025. Na edição de 2026, entram no ranking municipal 423 municípios brasileiros com população acima de 80 mil habitantes, segundo o critério adotado pelo CLP. 

“De um modo geral, o Recife mantém uma posição de destaque no cenário regional do Ranking de Competitividade dos Municípios 2026. Mesmo com a perda de oito colocações em relação ao ano anterior, a cidade segue como a capital mais competitiva do Nordeste, à frente de Teresina, 90ª colocada, e Fortaleza, na 104ª posição. É um resultado que mostra uma base importante de competitividade, mas também indica que há espaço para recuperar terreno nos próximos anos”, afirmou o presidente do CLP.

Entre os principais pontos fortes do Recife está a economia. A capital pernambucana ocupa a 17ª posição nacional nessa dimensão, o melhor resultado entre as capitais do Nordeste. Tadeu destaca também o desempenho em Inovação e Dinamismo Econômico, pilar em que o Recife lidera entre as capitais da região e ocupa o 27º lugar entre todos os municípios avaliados no País. A cidade aparece ainda na 12ª posição nacional em Capital Humano. “Esses dados ajudam a mostrar uma cidade com ativos relevantes em qualificação, atividade econômica e capacidade institucional”.

Entre os fatores críticos da competitividade recifense, segundo o executivo do CLP, estão a segurança (391ª posição), o saneamento (259ª), as telecomunicações (380ª). “O Ranking evidencia desafios que precisam ser enfrentados para que o Recife consiga transformar essas fortalezas em uma melhora mais consistente de sua competitividade. Segurança é um dos pontos mais críticos”. Ele apontou ainda que no indicador da Qualidade da Saúde, apesar de avançar 29 posições, a cidade ainda ocupa apenas o 317º lugar do Brasil.

Edgard Leonardo ressalta que há diferenças importantes entre os indicadores da capital pernambucana. “O Recife aparece em uma posição bastante melhor quando observamos as dimensões Instituições e Economia. Na primeira, ocupa a 15ª posição. Na dimensão Economia, está em 17º lugar. Já em Sociedade, aparece na 263ª posição. A diferença é grande e ajuda a entender o resultado geral da cidade”.

Edgard Leonardo Competitividade

Ele avalia, inclusive, que o relatório mostra que esse problema vai além do Recife. “Entre as capitais brasileiras, a dimensão Sociedade apresenta, em geral, o pior desempenho relativo. Instituições e Economia aparecem em situação melhor. O próprio estudo chama atenção para a importância dos indicadores sociais para o avanço da competitividade das capitais”, avalia o economista.

A região Nordeste, por sinal, apresenta um desempenho médio inferior ao de outras regiões, sendo os indicadores relacionados à Sociedade os mais críticos. Esse campo reúne sete pilares: acesso à saúde, qualidade da saúde, acesso à educação, qualidade da educação, segurança, saneamento e meio ambiente.

Competitividade também inclui municípios menores

Embora permaneça como a capital mais competitiva do Nordeste, o Recife não ocupa a primeira posição quando a comparação é ampliada para todos os municípios da região. “O Recife está em uma situação melhor que a média regional e continua como a capital mais bem posicionada do Nordeste, mas não é mais o município mais bem colocado da região. Esse posto passou a ser ocupado por Eusébio, no Ceará, que está na 58ª posição nacional”, afirma Edgard Leonardo.

A cidade, que integra a Região Metropolitana de Fortaleza, com menos de 75 mil pessoas, mostra que a competitividade vai além da importância econômica ou do tamanho do ente federativo. São os indicadores de educação e saúde que puxaram o município cearense para a liderança regional.

Em Pernambuco, esse olhar para além da capital revela desempenhos bastante distintos entre os municípios presentes no ranking. Depois do Recife, os pernambucanos mais bem posicionados são Serra Talhada, na 171ª colocação nacional, Belo Jardim, na 201ª, Caruaru, na 204ª, e Petrolina, na 234ª. Os movimentos em relação ao ano anterior também mostram cidades do interior ganhando espaço, enquanto outras perderam posições.

ranking Easy Resize.com

Em Pernambuco, o destaque ficou para Belo Jardim, que subiu 63 posições neste ano. A cidade do Agreste está na posição 201 entre todos os municípios pesquisados no Brasil e na terceira colocação de Pernambuco. Os maiores saltos foram registrados nos indicadores de Funcionamento da Máquina Pública (melhoria de 178 posições), Qualidade da Saúde (avanço de 175 posições) e Segurança (crescimento de 140 posições).

Desafios do Sertão

No Sertão pernambucano, apenas três cidades foram pesquisadas. Serra Talhada (segunda colocada em Pernambuco e ocupando a 171ª posição no País), Petrolina (5º no Ranking Estadual e 234º no Nacional) e Araripina (20º em Pernambuco e 364º no País). A cidade do Sertão do Araripe, inclusive, caiu 102 posições em relação ao ano anterior, especialmente pelos indicadores de Sustentabilidade Fiscal (-147 posições) e Qualidade da Saúde (-166 colocações). 

O desempenho de Araripina no ranking chama atenção para uma região que possui uma importante atividade industrial, mas ainda enfrenta entraves para ampliar sua competitividade. Para Daniel Torres, da Agência de Desenvolvimento Econômico e Social do Araripe (Adesa), entre os principais desafios estão a carga tributária e as dificuldades logísticas. “O Sertão do Araripe enfrenta desafios para a competitividade, incluída a pesada carga tributária e falta de logística de transporte em se tratando da cadeia produtiva do gesso”. 

Uma das principais expectativas para enfrentar parte desses gargalos está na Ferrovia Transnordestina. Daniel destaca que, além da conclusão do trecho que atende à região, será necessário avançar na ligação ferroviária. “A Ferrovia Transnordestina é um fato, com um ramal em fase de conclusão, mas ainda falta complementar a ligação da região ao Porto de Suape e, definitivamente, integrá-la à Ferrovia Norte-Sul. Esses fatores impactam diretamente a competitividade do setor gesseiro e de outras cadeias produtivas da região, como o polo de calcário e a produção de leite. A microrregião promete um avanço no quesito competitividade fundamentalmente pela entrada em operacionalização da ferrovia”.

Daniel Torres Competitividade

Na avaliação do representante da Adesa, a ferrovia poderá reduzir parte das dificuldades logísticas enfrentadas pelo Araripe e criar melhores condições para a competitividade regional. A infraestrutura de transporte, porém, não é a única frente apontada para ampliar a capacidade produtiva da região. Daniel cita a proposta Araripe Indústria 2.0, apresentada pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), que busca transformar o Polo Gesseiro em um centro de materiais industrializados e de soluções para a construção civil, incorporando modernização e inovação à atividade.

Iniciativa privada também constrói competitividade 

Embora muitas das demandas relacionadas à competitividade passem pelo poder público, como investimentos em infraestrutura e simplificação de processos, o setor empresarial também pode assumir um papel mais ativo na construção de um ambiente econômico mais competitivo. 

Na avaliação de Fábio Menezes, consultor da TGI, burocracia, falta de agilidade das organizações públicas e complexidade tributária ainda estão entre as queixas recorrentes do empresariado pernambucano. Ele cita especialmente as dificuldades relacionadas ao ICMS e relata o caso de um empresário que, mesmo trabalhando com seu contador, encontrava dificuldades para calcular com precisão o custo final de um produto diante das diversas variáveis envolvidas.

Para Fábio, porém, a discussão não deve se limitar às cobranças dirigidas ao poder público. “Essa é uma questão muito importante, penso que a classe empresarial pode e deve ter um papel muito mais relevante no desenvolvimento da competitividade do Estado, para além de projetos pontuais e planos de curtíssimo prazo. Afinal, os mandatos dos governantes passam muito rápido, mas os empreendimentos competitivos podem existir por muito mais tempo. E, para se manterem competitivos, precisam ter um mercado dinâmico. Logo, participar da discussão sobre a competitividade do Estado não é uma ação isolada, mas uma iniciativa diretamente ligada à competitividade do seu próprio negócio”. 

Fabio Menezes Competitividade

Essa necessidade de pensar além dos ciclos políticos é ilustrada por uma situação presenciada por Fábio anos atrás, quando um empresário do setor hoteleiro disse a um secretário de Turismo: “Secretário, daqui a quatro anos o senhor não estará mais nesse cargo, mas eu não posso colocar o meu hotel nas costas e levá-lo para João Pessoa, por exemplo.” 

Seja pelas mãos dos governos estadual e municipais, seja pela participação da sociedade e da iniciativa privada, a competitividade é uma engrenagem formada por fatores visíveis e menos perceptíveis que impactam diretamente o desenvolvimento dos Estados e municípios. Em um momento de discussão sobre novos ciclos políticos e projetos de longo prazo, os rankings oferecem mais do que posições em uma tabela: ajudam a identificar os caminhos que Pernambuco precisa percorrer para avançar nos próximos anos e décadas.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

Categorias: Uncategorized