Estudo da FGV Ibre aponta que o Nordeste é a região com maior risco socioeconômico diante do tarifaço dos EUA. Isenções atingem 30,3% da pauta exportadora regional

Paulo Goethe

De Recife paulo.goethe@movimentoeconomico.com.br / FONTE: ME

Com predominância de produtos primários de baixo valor agregado, como frutas frescas, mel, calçados e vestuário, e elevada dependência de mão de obra de baixa qualificação, o Nordeste é a região brasileira com maior risco socioeconômico diante do tarifaço dos Estados Unidos que entrou em vigor na quarta-feira (6). Embora o Sudeste concentre 22,5% das exportações nacionais para os Estados Unidos, é no Nordeste — com participação de 11,1% — que os impactos sociais e econômicos são mais significativos, devido à fragilidade estrutural da base produtiva local.

Segundo análise elaborada pelo pesquisador Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do Instituto Brasileiro de Economia, unidade da Fundação Getulio Vargas, o Nordeste figura como a região com maior risco socioeconômico no cenário ajustado pelas isenções tarifárias. O artigo Tarifaço de Trump e seus impactos regionais, escrito em parceria com Thiago de Araújo Freitas, foi publicado no site da FGV Ibre no mesmo dia da entrada em vigor das novas alíquotas.

governo norte-americano estabeleceu uma tarifa de até 50% sobre parte das exportações brasileiras. Cerca de 694 produtos foram isentos da sobretaxa, incluindo petróleo, suco de laranja, fertilizantes, celulose e aeronaves civis. No entanto, as isenções não se distribuíram de forma homogênea entre regiões e setores.

De acordo com o estudo, apenas 30,3% da pauta exportadora do Nordeste foi excluída da tarifa. “As isenções tarifárias provocaram uma redistribuição parcial da vulnerabilidade regional… mas sem eliminar os desequilíbrios estruturais existentes”, observam os autores.

A tarifa atinge especialmente segmentos com baixa agregação de valor e alta intensidade de trabalho pouco qualificado, dificultando a resposta de cadeias produtivas regionais com menor capacidade de redirecionamento comercial.

Exportações do Nordeste para os EUA e impacto do tarifaço (Tabla)
*Estimativas baseadas em dados agregados da FGV Ibre. O impacto considera valor agregado, intensidade de mão de obra e capacidade de redirecionamento comercial.

Nordeste tem alta concentração de exportações sensíveis

Flávio Ataliba avalia que “isso acontece especialmente em cadeias com menor capacidade de absorção interna e forte concentração em pequenos produtores e cooperativas”, como o mel do Piauí e frutas do Pernambuco e da Bahia. Esses segmentos têm baixa capacidade de reorganização logística e redirecionamento comercial, o que amplia os efeitos negativos do tarifaço. Ataliba acrescenta que a estrutura produtiva regional carece de canais institucionais robustos, o que eleva o risco de impactos prolongados no emprego e na renda da população local.

A análise regional detalha que, entre os estados nordestinos, o Ceará lidera a dependência do mercado norte-americano, com 44,9% das exportações estaduais voltadas aos EUA em 2024, incluindo pescados, calçados, artigos de couro e ferro fundido. A Paraíba aparece em seguida, com 21,64% de sua pauta destinada aos Estados Unidos, com destaque para açúcar, calçados e couro. Já Sergipe exporta cerca de 17,1% para os EUA, incluindo sucos, resinas e óleos vegetais.

Esses percentuais evidenciam a vulnerabilidade econômica regional, principalmente em estados com baixa diversificação produtiva e concentração em poucos produtos sensíveis às novas tarifas. A combinação entre produtos de baixo valor agregado e elevada utilização de mão de obra de baixa qualificação agrava os efeitos econômicos e sociais nas cadeias atingidas. Mesmo os setores parcialmente isentos da tarifa, como celulose e combustíveis, não possuem a mesma intensidade de geração de empregos formais que as cadeias atingidas.

Impacto direto no emprego e na renda

Os efeitos do tarifaço sobre o Nordeste não se restringem à redução no volume exportado. O estudo destaca o risco de aumento do desemprego em municípios dependentes de cadeias exportadoras específicas, como é o caso da fruticultura irrigada no Vale do São Francisco (PE/BA), do mel no Piauí, das confecções no Agreste de Pernambuco e da indústria calçadista no Ceará.

A retração da demanda norte-americana, com tarifas vigentes no início da janela de exportação de frutas como a manga, antecipa perdas no faturamento e renda de produtores e trabalhadores com níveis de escolaridade baixos e limitada mobilidade laboral. Sem um mercado interno dinâmico capaz de absorver o excedente de produção ou o contingente de trabalhadores, os impactos tendem a se prolongar.

Norte também é vulnerável e Centro-Oeste menos afetado

Além do Nordeste, o estudo também identifica risco elevado na região Norte, apesar da baixa exposição comercial direta aos Estados Unidos (3,9%). A vulnerabilidade se deve à composição da pauta exportadora e à predominância de ocupações com baixa qualificação, o que reduz a capacidade de resposta a choques externos.

Em contraste, o Centro-Oeste aparece como a região menos impactada, com 33,8% da pauta isenta da tarifa, maior diversificação produtiva e exposição reduzida ao mercado norte-americano. Já o Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, teve apenas 4% da pauta excluída da nova alíquota, o que eleva o risco setorial, particularmente nos segmentos de calçados e móveis.

FGV propõe políticas regionais adaptadas

O estudo da FGV Ibre propõe três eixos de políticas públicas para conter os efeitos do tarifaço sobre o Nordeste: articulação federativa e política comercial subnacional, com foco na diversificação de mercados e proteção dos setores mais vulneráveis; apoio técnico à certificação internacional, agregação de valor e inovação, fortalecendo a competitividade de produtos regionais; e investimentos em infraestrutura logística e inteligência comercial, com mapeamento de riscos e oportunidades para as exportações regionais.

Segundo Flávio Ataliba, as soluções não podem ser homogêneas, pois o impacto é desigual entre as regiões. A ausência de resposta direcionada pode agravar a concentração de renda, o desemprego e a dependência externa, aprofundando as disparidades regionais existentes.

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