Fruticultura, carnes e calçados estão entre os setores mais vulneráveis do Nordeste, segundo estudo do Dieese, que alerta para riscos de perdas bilionárias e impactos nas negociações coletivas

Paulo Goethe

De Recife paulo.goethe@movimentoeconomico.com.br / FONTE: ME

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ameaça mais de 43 mil postos de trabalho no Nordeste, segundo projeção proporcional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O dado faz parte do estudo técnico Impactos potenciais do tarifaço norte-americano para setores, empregos e negociações coletivas do 2º semestre de 2025, publicado neste mês de agosto, que estima 726,7 mil empregos em risco em todo o Brasil. O cálculo considera que a região concentra 186 instrumentos coletivos de empresas exportadoras, o equivalente a 6% do total identificado no país.

O documento foi elaborado com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e do Ministério do Trabalho e Emprego, cruzados com a Matriz Insumo-Produto nacional. No Nordeste, os setores mais expostos são a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco (PE/BA), a produção de carne bovina, a indústria calçadista do Ceará e da Bahia e o setor de confecções, todos com forte participação no mercado norte-americano. O Dieese registra: “Frutas, carnes e outros tipos de alimentos podem enfrentar problemas, com risco de desemprego nas regiões produtoras”.

Empregos ameaçados no Nordeste com o tarifaço dos EUA (2025) (Tabla)

As tarifas, que variam de 10% a 76,4%, foram instituídas por ordem executiva norte-americana em julho de 2025, atingindo setores como autopeças, siderurgia, químicos, alimentos processados, máquinas e eletroeletrônicos. Em 2024, os produtos afetados representaram 35,9% dos US$ 40,4 bilhões exportados aos EUA, segundo o MDIC.

Brasil registrou déficit de US$ 283,8 milhões na balança comercial com os EUA no último ano, embora o país seja o segundo maior destino das exportações brasileiras (12%), atrás apenas da China (28%). Os efeitos estimados pelo Dieese incluem a redução de R$ 38,87 bilhões no valor adicionadoR$ 14,33 bilhões na massa salarial e R$ 3,31 bilhões na arrecadação da Previdência e FGTS, além de queda de 0,357% no PIB.

coordenação da subseção do Dieese na CUT Brasil, responsável pelo estudo, registrou que o objetivo é alertar sobre a gravidade da situação: “As projeções aqui apresentadas procuram mostrar o impacto negativo das tarifas instauradas contra o Brasil, se nenhuma iniciativa for tomada para minimizar os prejuízos”.

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Setores do Nordeste mais afetados pelo tarifaço dos EUA (2025) (Círculos múltiples)

Fruticultura, carnes e calçados concentram riscos no Nordeste

Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, concentra mais de 70% da produção de manga destinada à exportação, segundo a Conab. Em 2024, o Brasil exportou 249 mil toneladas da fruta, com os EUA absorvendo parcela relevante desse volume. O Dieese observa que “as exportações de frutas equivalem a 12% do faturamento do setor, com risco de desemprego em atividades sazonais”.

Na carne bovina, as exportações para os EUA alcançaram 229 mil toneladas em 2024, com previsão de subir para 400 mil toneladas em 2025, de acordo com o MDIC. O estudo alerta que, diante das novas tarifas, “as perdas estimadas para o setor podem chegar a US$ 1 bilhão”.

O setor de calçados, com polos em Ceará e Bahia, também é citado como vulnerável. Segundo a Abicalçados, o Nordeste responde por cerca de 40% da produção nacional de calçados. O Dieese avalia que a dificuldade de redirecionamento da produção tende a ampliar os impactos: “Na indústria, segmentos metalúrgico, de alimentos, madeira, químico e vestuário/calçados são os potencialmente mais afetados”.

Entre os 186 acordos coletivos identificados no NordestePernambuco lidera com 52, seguido por Ceará (42)Bahia (31) e Paraíba (26). Esses números integram o painel nacional de 3.075 instrumentos coletivos, que envolvem 1.459 sindicatos diretamente conectados a empresas exportadoras para os EUA.

A estimativa proporcional do Dieese indica que até 43.600 empregos no Nordeste podem ser atingidos, somando efeitos diretos, indiretos e induzidos pelo choque nas exportações e pela perda de renda das famílias.

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Produção de mangas no Vale do São Francisco (PE/BA): estudo do Dieese alerta que o tarifaço dos EUA pode reduzir exportações e empregos sazonais no Nordeste. Foto: Embrapa/Divulgação

Redirecionamento de mercado pode reduzir impactos

O Dieese alerta que os impactos negativos se consolidam apenas se não houver redirecionamento das exportações para outros mercados. A ApexBrasil e o MDIC monitoram estratégias de compensação, incluindo acordos comerciais com países da Ásia e da América Latina.

As negociações coletivas serão decisivas na definição de alternativas para manutenção de empregos e salários. No total, 10 mil empresas brasileiras exportam para os EUA, e cerca de 30% delas têm negociação direta com sindicatos. O estudo adverte que “o resultado será um impacto maior no emprego, que pode ser considerado como ‘teto’ no curto prazo”.

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