94% das empresas industriais apontaram a taxa de juros como principal motivação para buscar os fundos; burocracia e falta de informação seguem sendo obstáculos ao crédito
FONTE: CNI
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Levantamento inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado nesta quarta-feira (15) mostra que as taxas de juros foram a principal motivação para as empresas industriais buscarem crédito junto aos Fundos Constitucionais de Financiamento (FCFs) entre 2022 e 2025. Por outro lado, o excesso de burocracia e de garantias exigidas pelos bancos, além da falta de conhecimento sobre os fundos, impediram maior acesso do setor aos recursos.
Segundo a pesquisa, 94% das indústrias que solicitaram crédito a algum dos FCFs apontaram as taxas de juros mais atrativas como a principal motivação para a procura, resultado que contrasta com a Sondagem Especial de Condições de Acesso ao Crédito, divulgada pela CNI em janeiro, em que o custo do crédito foi apontado como o maior obstáculo para o acesso ao financiamento.
“As taxas de juros costumam ser o maior entrave para a obtenção de crédito no país, ainda mais quando estão em um patamar tão elevado, como o atual. A pesquisa mostra que a política pública tem conseguido sanar esse gargalo, mas é preciso ponderar que os juros médios cobrados da indústria ainda são bem maiores do que para o setor rural, por exemplo. Há abertura para equalizar essa diferença”, aponta Julia Dias, analista de Políticas e Indústria da CNI.
Confira a análise completa sobre a pesquisa na sonora de Julia Dias, analista de Políticas e Indústria da CNI:
Os empresários também destacaram os prazos de pagamento e carência (56%) e o relacionamento prévio com o banco operador (24%) como fatores importantes na decisão de buscar recursos por meio dos fundos.
Burocracia, garantias e falta de conhecimento travaram o crédito
De acordo com o levantamento, quase quatro em cada dez indústrias (38,1%) não conhecem os fundos, sinalizando que a política-pública não está alcançando todo o público-alvo ou que, embora esteja, não é adequadamente reconhecida. Esse dado sugere que as empresas podem acessar o crédito sem relacioná-lo à política de desenvolvimento voltada à região.
Já entre as indústrias que conhecem os fundos, mas não solicitaram crédito, 38,5% apontaram a aparente burocracia ou demora do processo para obter financiamento como o principal entrave. A falta de informação suficiente sobre os FCFs e a falta de necessidade de crédito no período aparecem empatadas como segundo maior obstáculo (28,2%).
Os empresários também foram questionados sobre o grau de exigência das garantias solicitadas durante a tentativa de contratação do crédito. Mais de metade (56%) classificaram as evidências requeridas pelos bancos operadores como razoáveis, considerando o perfil da empesa. No entanto, 38% dos industriais afirmaram que as instituições financeiras foram exigentes demais com as garantias, ao passo em que 6% dos empresários classificaram os bancos como pouco exigentes nessas operações.
Compra de máquinas e equipamentos foi a principal finalidade do crédito
A pesquisa também revela que a demanda de crédito do setor industrial junto aos fundos prioriza investimentos de natureza estrutural: 56% das empresas que solicitaram crédito tinham como objetivo a compra de máquinas e equipamentos; 22% visavam a construção, manutenção, modernização ou instalação de planta, fábrica ou armazém; enquanto apenas 18% buscavam crédito para capital de giro, ou seja, sustentar o fluxo de caixa e as necessidades operacionais do dia a dia, como pagamento da folha de salários e impostos.
O resultado vai na direção contrária do que revelou a última Sondagem Especial de Condições de Acesso ao Crédito, na qual o capital de giro foi apontado como a principal finalidade da demanda por crédito das empresas industriais.
“O uso dos recursos para a compra de máquinas e equipamentos e melhoria da estrutura das empresas está alinhado com o objetivo da política pública. Esse crédito mais estruturante vai contribuir para a incorporação de novas tecnologias, o aumento da produtividade e, de forma geral, a competitividade das empresas”, afirma a economista.
Crédito teve impacto positivo para quase 90% das empresas
Entre as indústrias que conseguiram crédito no período, 88,6% avaliaram positivamente o impacto dos recursos nas operações, sendo a viabilização da compra de máquinas e equipamentos (62,2%), da expansão física da empresa (37,8%) e a contribuição para a geração de empregos (29,7%) as principais razões para isso. Apenas 5,4% atribuíram o impacto positivo gerado pelo crédito à recuperação financeira, indicando que o instrumento está sendo usado de forma saudável pelas empresas, aponta o estudo.
Maior parte das empresas conseguiu crédito suficiente
O levantamento também mostra que 52% das empresas conseguiram contratar financiamento por meio dos fundos e que o valor aprovado foi igual ao que necessitavam. Outros 32% também conseguiram recursos, mas em valor inferior ao necessário. Apenas 4% das empresas obtiveram crédito acima do que precisavam. Além disso, o percentual de empresas que tentaram, mas não conseguiram contratar nenhuma operação foi de 10%, porcentagem inferior ao registrado na Sondagem Especial de Condições de Acesso ao Crédito, que variou entre 19% e 32%.
64% das empresas estão satisfeitas com os fundos
Os empresários também avaliaram o nível de satisfação com a experiência junto aos fundos no momento da solicitação do crédito. Quase dois terços (68%) dos entrevistados se declararam satisfeitos ou muito satisfeitos, dos quais 56,3% elegeram as taxas de juros como o principal motivo para a avaliação positiva; os prazos de pagamento e de carência (43,8%) e o atendimento recebido (40,6%) vieram em seguida.
Por outro lado, 24% dos entrevistados se disseram insatisfeitos ou muito insatisfeitos, dos quais metade culpou o atendimento recebido e os prazos de pagamento e de carência. A burocracia e as taxas de juros, ambas com 35,7% das assinalações, aparecem na sequência. O resultado sugere que, embora as taxas de juros tenham sido apontadas como a principal motivação para a busca por crédito, parte dos empresários não mantém essa percepção após conseguir o financiamento.
Demanda por crédito esbarra em falta de informação
Entre as empresas que conhecem os fundos, 88,5% responderam que considerariam solicitar crédito posteriormente. Quando se considera o grupo total de entrevistados, o percentual cai para 52,4%, uma vez que boa parte das empresas sequer conhece a política pública.
Sobre a pesquisa
A pesquisa temática foi realizada no âmbito do Acordo de Cooperação Técnica Firmado entre a CNI e o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), em fevereiro de 2025, especificamente do eixo 4, que tem como objetivo ampliar a participação da indústria na destinação dos recursos dos FCFs. O levantamento consultou 147 empresas industriais, localizadas nas regiões de abrangência dos fundos: Centro-Oeste, Norte, Nordeste e municípios elegíveis de Minas Gerais e do Espírito Santo. O questionário foi aplicado entre 23 de outubro de 2025 e 22 de janeiro de 2026 e os resultados correspondem aos três anos anteriores a esse período